Negligenciando a preservação do conhecimento tradicional

Mea culpa, mea culpa, mea maxima culpa”. Declaro aqui de público que fui negligente com a preservação do conhecimento tradicional. Explico.

Como toda a família, a minha tem tradições culinárias que sempre nos uniu em nossas memórias, afetivas e gustativas. Geralmente em ocasiões festivas, como aniversários e natal, em torno da mesa, aquele prato esperado ansiosamente era a representação daquele momento em família. Um dos pratos tradicionais da nossa família era feito pelo meu pai: a ambrosia. Vou usar o exemplo da ambrosia feita pelo meu pai para exemplificar alguns aspectos da preservação do conhecimento tradicional em bancos de dados.

Pois bem, uma vez que meu pai já não está mais entre nós, e que eu nunca me interessei em aprender com ele como era feita a ambrosia, e sua história (alegadamente, ambrosia feita pela minha vó), este “conhecimento tradicional” da minha família está perdido para sempre. Porém, lembrando da pirâmide do conhecimento, tenho alguns “dados” e “informações”:

Dados: ovos, leite, açúcar, ambrosia

Informação: ovos + leite + açúcar = ambrosia

Considerando o topo da pirâmide como a de “sabedoria”, também tenho a sabedoria de que, com meus indicadores de glicemia, não deveria comer ambrosia. Não seria sábio!

Fica claro aqui que a lacuna na preservação deste conhecimento tradicional da minha família é exatamente o conhecimento de COMO fazer a ambrosia. Como juntar os ingredientes (dados), uma vez que sei que tenho a informação de que estes são os ingredientes da ambrosia. Porém, quando e em que quantidade cada um dos ingredientes deve entrar na panela, por quanto tempo deve ficar cozinhando, em que tipo de panela, em qual temperatura, etc. são as lacunas. Esse é o conhecimento que eu deveria ter preservado!

Estabelecendo um paralelo com a etnobotânica, muitos bancos de dados disponíveis por ai têm a informação de que uma determinada espécie é utilizada para dor de cabeça. Pode até dizer que esta determinada espécie é usada em infusão (chá) para “curar” dor de cabeça, pela comunidade da Serra da Cuxixola. Isso é, sem dúvida, uma “base de dados”. Porém, o “pulo do gato” é o seguinte: você tem que colher somente as folhas jovens, na lua cheia. Estas folhas são colocadas de molho em uma garrafa de vidro escuro com água escorrida do cozimento da batata, por 30 dias. Depois de 30 dias, as folhas devem ser secas ao sol, por pelo menos uma semana. Ai, com estas folhas secas, se faz o chá, que deve ser tomado em jejum, pela manhã, para “curar” a dor de cabeça. ESTE É O CONHECIMENTO!

Voltando à ambrosia, apesar de não ter registrado o conhecimento de como meu pai fazia a ambrosia em minha base de conhecimento pessoal, também conhecida como “caderno de receitas”, felizmente tenho acesso à maior base de conhecimentos que o mundo já construiu: o YouTube! Atire a primeira pedra quem nunca aprendeu a fazer alguma coisa assistindo a um vídeo no YouTube. Se, quando meu pai ainda estava por aí cozinhando ambrosias, eu tivesse os recursos atuais, como um celular que faz vídeos, seria bem simples ter feito um vídeo do meu pai cozinhando a ambrosia. Isso porque penso que grande parte do conhecimento é transmitido através da “demonstração de como se faz”. Assim, posso pesquisar “receita de ambrosia” no YouTube e ter acesso ao conhecimento de inúmeras pessoas que sabem fazer ambrosia (e algumas que acham que sabem…) e resolveram compartilhar este conhecimento publicamente.

Creio que agora ficam mais claros alguns aspectos da preservação do conhecimento tradicional sobre o uso das plantas que tenho considerado recentemente. Vamos a eles:

  • “Base de dados” é diferente de “base de conhecimentos”. Se perguntar ao seu “ChatGPT” preferido vai ter algo como isso: “uma base de dados é um conjunto de dados armazenados em um sistema de gerenciamento de banco de dados, enquanto uma base de conhecimentos é um conjunto de informações, conhecimentos e experiências armazenadas em um formato que permite que os usuários acessem e utilizem essas informações para tomar decisões e melhorar processos.”;
  • Podemos considerar que uma base de conhecimentos ideal seria “multimodal”: ou seja, além de “dados”, sob a forma de “strings” organizadas em atributos, classes e termos, teríamos vídeos, áudios e imagens como parte desta base. Por exemplo, um vídeo da “Dona Maria”, da “Serra da Cuxixola”, fazendo o chá para curar a dor de cabeça, desde a busca e coleta da planta, até o produto final;
  • A tecnologia disponível hoje para lidar com dados não estruturados hoje é fabulosa e deve ser considerada. Creio ser desnecessário destacar que imagens e vídeos hoje são o conteúdo que mais se desenvolveu na Internet, considerando Instagram, YouTube e TikTok como alguns exemplos. Ainda temos os áudios, em formato de “podcast”, como tecnologias também válidas e bem consolidadas;
  • Penso também que a atribuição do conhecimento a uma determinada pessoa ou comunidade ficaria bem mais apropriada – e precisa – se associada ao processo em si, que poderia ser registrado em áudio, em vídeo, ou mesmo em uma clássica “receita” ou documentação de processo. Da mesma forma que a busca no YouTube retorna milhares de formas de fazer ambrosia, a forma que meu pai fazia, única, não está lá. Está perdida para todo o sempre. Porém, se eu tivesse posto lá um vídeo do meu pai cozinhando a sua famosa ambrosia, ficaria claro, de forma inequívoca, que aquele conhecimento estaria vindo do meu pai.

Pois bem, isto posto, penso que poderíamos chamar as coisas do que elas são realmente. Um banco de dados não é uma base de conhecimento. Porém, uma base de conhecimento pode utilizar-se de um sistema gerenciador de banco de dados. Penso também que, conforme tenho visto em minhas interações com pesquisadores na área, a perda do conhecimento tradicional, em diferentes comunidades, sobre o uso de plantas é um fato. Não é construindo bancos de dados, dizendo que a espécie x serve para y, que vamos preservar este conhecimento. Uma estrutura razoavelmente mais complexa precisa ser pensada e proposta para tal.

Sei que existem questões que permeiam o conhecimento tradicional, como, por exemplo, a rastreabilidade e a repartição de benefícios. Penso, por fim, que muitas destas questões seriam resolvidas ou encaminhadas apropriadamente, com uma estrutura adequada de preservação deste conhecimento.

Comentários são sempre bem vindos!

Como citar: DALCIN, E. Negligenciando a preservação do conhecimento tradicional. Biodiversidade, Dados e Metadados, [s. l.], 28 jan. 2025. Disponível em: https://eduardo.dalc.in/negligenciando-a-preservacao-do-conhecimento-tradicional/. Acesso em: .