Preservação do Conhecimento Tradicional Sobre o Uso das Plantas – pensando “fora da caixinha”

Fonte: https://naturaljustice.org/publication/the-abs-picture-box/2_traditional-knowledge-a3/

Há algum tempo tive a oportunidade – e o privilégio – de me envolver com {iniciativas, alunos, pesquisadores, conjuntos de dados} relacionados com o que é chamado de “conhecimento tradicional no uso das plantas”. Seja para confecção de artefatos, seja para o uso medicinal, tenho aprendido bastante com a Dra. Viviane Kruel, e suas alunas Nicky van Luijk, Luisa Ridolph Tostes Braga e Camila Nascimento Dantas. Uma experiência realmente enriquecedora e fascinante adentrar para um domínio tão complexo e desafiador, do ponto de vista da arquitetura de dados. Desta experiência, algumas percepções já se consolidaram, e outras, sob a forma de ideias, andam me assombrando nas noites frias de outono.

Antes de ir direto ao ponto, no aspecto de organização dos dados, preciso dizer que a ideia é polêmica (uma forma elegante de dizer que é “maluca”), e que arrisco perder os pouquíssimos amigos taxonomistas que tenho. Aliás, se você é taxonomista e tem um coração fraco, sugiro que pare de ler agora e volte para a Rodriguésia. Para quem continua por aqui, apertem seus cintos de segurança e vamos em frente!

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Anatomia de uma ocorrência

Era dois de março de 2004 e o verão estava chegando ao fim. A expedição ao Parque Estadual do Desengano, no Rio de Janeiro, formada por oito pesquisadores, avistou um afloramento rochoso à direita da estrada que leva a entrada do Parque Estadual do Desengano à Morumbeca. Resolveram parar. A Dra. Rafaela Forzza percebeu uma população de indivíduos da família Bromeliaceae – família botânica de seu interesse – e resolveu coletar dez exemplares para estudos posteriores na instituição, sob o número 2843, em sua caderneta de coleta. Ela anota a localização, tirada do equipamento de GPS: 21º 52.54′ S e 41º 56.36’W; e anota a altitude oferecida também pelo GPS: 683 m.s.m.

Como de costume, a descrição do material também é anotada em sua caderneta de campo:

Erva 3m alt., folhas verde-claras com bainha castanha, escapo rosado, brácteas do escapo rosadas na base, verdes no ápice, primarias rosa, raque verde clara, bráctea floral e sépalas amarelas, pétals alvas passando a amarelas, androceu e gineceu alvos, aroma adocicado, suave, 9 ex (exemplares).
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“Por mares nunca dantes navegados…”

Ando sumido. Fato. Porém, por uma “boa causa”, que gostaria de compartilhar com vocês.

Desde meu artigo sobre “a maldição das tabelas“, onde compartilhei minha iniciação com JSON, para estruturar dados em documentos; e com o MongoDB, para lidar com estes documentos, estou irremediavelmente amaldiçoado enfeitiçado pela dupla “JSON-MongoDB”. Continue lendo ““Por mares nunca dantes navegados…””

Publicações e Publicações

Recentemente recebi de presente duas publicações muito interessantes: Restinga de Massambaba – Vegetação, Flora, Preservação e Usos e o Guia de Biodiversidade Marinha e Mergulho das Ilhas do Rio. Publicações riquíssimas e repletas de dados e informações relevantes. Publicações como estas representam o esforço coletivo de pesquisadores, alunos, editores, diagramadores, entre outros; no campo, no laboratório e no escritório. Dias, meses, se não, anos de trabalho duro.

O ponto aqui é: A importância, relevância e visibilidade deste árduo e valoroso trabalho está esgotada com estas publicações? Os recursos investidos para chegar neste produto final, materializado sob a forma de um “arquivo PDF”, foram potencializados ao máximo? A minha resposta à estas perguntas é um sonoro NÃO! Continue lendo “Publicações e Publicações”

A Ovelha Negra

Certa vez estavam em um trem, cruzando a Escócia, um astrônomo, um biólogo e um matemático. Em um determinado trecho da viagem o trem passa por um campo onde havia uma ovelha negra. Imediatamente o astrônomo comenta:
 
– Olhem! As ovelhas na Escócia são negras!
 
Em seguida o biólogo retruca:
 
– Na verdade, existe uma ovelha negra na Escócia.
 
E, na sequência, o matemático complementa:
 
– Na Escócia existe um campo. Neste campo existe uma ovelha, e pelo menos um lado desta ovelha é negro
 

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A maldição das tabelas

Há algum tempo venho investindo uma parte do meu tempo para ler e aprender sobre novas formas de modelar e estruturar dados. Nestes tempos que vivemos, novas tecnologias estão disponíveis e parece ser razoável considerar novas abordagens para representar o mundo real.

Acredita-se que as primeiras tabelas surgiram com os sumérios, na antiga Mesopotâmia, há cerca de 2.000 anos, e nossa civilização vem usando esta forma de organizar dados desde então. Desde a mais tenra idade, na escola e, quando adultos, no trabalho, somos condicionados a organizar nossos dados em linhas e colunas. Até aqui, neste editor de texto que vos escrevo (e na maioria dos outros), existe um botão onde posso, rapidamente, criar uma tabela. No maravilhoso mundo dos bancos de dados, as tabelas não só prosperaram como, desde 1970, passaram a se relacionar e, pasmem, deste relacionamento passaram a ter filhos! E, como que por encanto, as “planilhas de cálculo” se tornaram a solução, não para calcular, mas para listar e organizar dados. A presença onipotente das linhas e colunas perverteu até o mais ingênuo e inócuo arquivo digital. O “TXT” virou o “CSV” e passou a frequentar a elite do mundo digital.

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Era uma vez, em um reino muito distante…

Em agosto deste ano (2022) eu fiz uma postagem chamada “A ferramenta e o resultado do trabalho“, onde eu tive um despretensioso “insight“:

“…Precisamos “comunicar com dados”. É a razão da existência deles. Dados precisam contar histórias, apresentar fatos e constituir evidências.”

Desde então fiquei com a clara percepção de que, como “pesquisadores”, somos “contadores de histórias” (Storytellers). Isso quer dizer que, com os dados coletados em nossas pesquisas, devemos ser capazes de construir uma narrativa relevante para formar uma história com enredo, personagens e ambiente para passar uma mensagem central. E é isso que fazemos em nossos artigos científicos, quando queremos comunicar com nossos pares. Fomos treinados e condicionados para isso. Porém, fomos treinados e incentivados a fazer essa comunicação em formatos muito específicos, como apresentações e painéis em congressos, e artigos científicos, geralmente de forma bem cartesiana, pouco criativa e, porque não dizer, entediante. Deste ponto divergem capacidades de comunicar para o público, com profissionais de jornalismo e comunicação científica. Entretanto, ainda estamos longe de contar histórias cativantes e impactantes sobre o status da biodiversidade para nossos tomadores de decisão, uma das minhas áreas de grande interesse profissional. Continue lendo “Era uma vez, em um reino muito distante…”

Identidade institucional

Lido no meu dia-a-dia profissional com diferentes instituições dentro do domínio que gosto de chamar por “gestão de informação sobre biodiversidade” e, neste processo, percebo diferenças de capacidade e competência destas instituições na lida com dados e informações sobre biodiversidade. A reflexão aqui é sobre em que consiste estas diferenças e quais suas causas.

A ideia deste post surgiu em uma reunião recente onde fui levado a refletir do porquê a instituição “X” tinha diferentes capacidades e competências na lida com dados de biodiversidade, se comparada com a instituição “Y”. No caso, a instituição “Y” era o Instituto de Pesquisas Jardim Botânico do Rio de Janeiro (JBRJ), instituição onde trabalho.

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Discutindo a relação

Quem trabalha no “domínio” da biodiversidade tem a clara percepção de que ela é “transversal” a tudo. A manifestação da biodiversidade está presente nas questões sociais, saúde, cultura, direitos e cidadania, ciência, tecnologia, educação e economia, cobrindo todos os “eixos temáticos”.

Somado a esta característica – a transversalidade temática – aprendi com o professor Jorge Xavier da Silva, da UFRJ, pioneiro do geoprocessamento no Brasil, que dizia que “o fato biológico nunca está dissociado do fato ambiental“. A mais pura verdade! Obrigado professor!

Para complicar ainda mais, na camada mais interna desta “cebola de relações”, as espécies se relacionam entre si de formas e intensidades que mal conhecemos.

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A ferramenta e o resultado do trabalho

Caros leitores,

Primeiramente peço perdão pelo longo hiato de (exatamente!) dois anos, desde meu último post. Se você não vive em uma caverna inacessível de uma ilha isolada, no meio de um oceano desconhecido, sabe que os últimos dois anos foram, digamos, “transformadores”.

Esta transformação se deu em diferentes “planos”, “domínios” e “intensidades”. Uma delas foi na forma de realizar o trabalho – “conjunto de atividades, produtivas ou criativas, que exercermos para atingir determinado fim“. Como destaque, o trabalho remoto, que foi uma solução que evitou o colapso de alguns setores da economia. Apoiado por tecnologias de interação por vídeo e voz, utilizando computadores e celulares conectados a Internet, esta forma de trabalho amadureceu e se consolidou como uma nova opção.

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