A ferramenta e o resultado do trabalho

Caros leitores,

Primeiramente peço perdão pelo longo hiato de (exatamente!) dois anos, desde meu último post. Se você não vive em uma caverna inacessível de uma ilha isolada, no meio de um oceano desconhecido, sabe que os últimos dois anos foram, digamos, “transformadores”.

Esta transformação se deu em diferentes “planos”, “domínios” e “intensidades”. Uma delas foi na forma de realizar o trabalho – “conjunto de atividades, produtivas ou criativas, que exercermos para atingir determinado fim“. Como destaque, o trabalho remoto, que foi uma solução que evitou o colapso de alguns setores da economia. Apoiado por tecnologias de interação por vídeo e voz, utilizando computadores e celulares conectados a Internet, esta forma de trabalho amadureceu e se consolidou como uma nova opção.

Este antelóquio acaba tendo relação com o tema central desta postagem, pois creio ter ficado claro que neste processo de se adaptar ao “novo normal”, entramos em contato com novas ferramentas tecnológicas que possibilitaram as interações via video-voz com colegas de trabalho, e mesmo entre alunos e professores. Ferramentas como ZOOM, Google Meet, Microsoft Teams e Jitsi passaram a fazer parte do nosso dia-a-dia, ou melhor dizendo, do “conjunto de atividades, produtivas ou criativas, que exercermos para atingir determinado fim“.

E é aqui que quero compartilhar com o leitor algumas ferramentas que apareceram no meu  atento radar prospectivo, também motivado pelo revigorante contato recente com os alunos da Escola Nacional de Botânica Tropical, no Programa de Pós-Graduação Profissional Biodiversidade em Unidades de Conservação, ministrando a disciplina Gestão de Informação sobre Biodiversidade e Dados de Pesquisa.

O contato com alunos de pós-graduação, em especial na pós-graduação profissional, me oferece um panorama muito claro e privilegiado de como profissionais ligados à biodiversidade lidam com dados no seu dia-a-dia e, neste ano, por conta de minhas atividades de prospecção tecnológica mais recentes, pude perceber que estes profissionais ainda estão usando ferramentas “do século passado” (adoro falar isso!).

Vamos agora focar em apenas “um grão de areia desta praia” de ferramentas computacionais hoje necessárias para facilitar nosso trabalho: as indefectíveis “planilhas eletrônicas”.

Para os saudosistas, em meados dos anos 80 eu já dedilhava teclados de computador e fui apresentado ao Lotus 1-2-3 – uma das primeiras planilhas eletrônicas disponíveis no mercado. Deste momento em diante, estruturar dados em linhas e colunas virou uma necessidade diária no trabalho. Quase como respirar. 

Quarenta anos depois – agora no cerne desta postagem – continuamos usando as mesmas funcionalidades básicas destas planilhas de cálculo, travestidas de “bancos de dados”, para estruturar dados em linhas e colunas, muitas vezes para entrega do resultado do nosso trabalho.

Vamos agora por partes, e com vagar. Precisamos “comunicar com dados”. É a razão da existência deles. Dados precisam contar histórias, apresentar fatos e constituir evidências. Tabelas são excelentes comunicadoras de dados. Nada de errado com isso. Entretanto, até chegar no ponto de uma “tabela apresentável”, que muitas vezes já representa a síntese de outras tabelas, é preciso muito esforço. Este esforço, em minha modesta opinião, hoje está sendo representado pela imagem ilustrativa dese post, no topo. Ainda tem MUITA gente usando martelo para fixar um parafuso!

Em muitas situações, a “planilha eletrônica de cálculo” (reforço este nome, pois é isso que são. NÃO são “bancos de dados”) não é a ferramenta apropriada para manipular dados em linhas e colunas e, pasmem, hoje existem ferramentas bem melhores!

Este “post” está ficando longo e vou focar em apresentar algumas alternativas às planilhas para organizar (estruturar) dados. Entretanto, já estou pensando em outra postagem, pois mesmo a organização de dados em “linhas e colunas” já possui concorrência! Ando dedicado a estudar novas tecnologias de bancos de dados, e estou “apaixonado” pelos bancos de dados orientados a grafos. Mas vamos deixar isso para depois…

De volta às famigeradas planilhas, hoje existe uma categoria de ferramentas consideradas “a evolução das planilhas” ou “planilhas 2.0”. Duas das ferramentas mais representativas nesta categoria são a Airtable e a Baserow. Como entusiasta de dados, códigos e ferramentas abertas, tenho que citar também meu querido NocoDB, como a alternativa “open source” às duas primeiras.

Pausa para vocês clicarem nos links acima e conhecerem estas pequenas maravilhas da organização de dados.

Impressionante não é? Dá vontade de sair usando logo! Um aviso é necessário: É um caminho sem volta à sua amada planilha.

No entanto, a solução que caiu nas minhas graças foi o GRIST. Com a chamada “The world deserves a better tool than spreadsheets” eles já conquistaram minha simpatia e atenção. Foi começar a usar e perceber que ela vai um pouco além das ferramentas anteriores, com funcionalidades e facilidades para se relacionar “n” tabelas, por exemplo, e fórmulas em Phyton, que estende o potencial desta ferramenta de forma significativa. Sem exagero, você pode desenvolver um “sistema” completo dentro do GRIST, com telas de entrada de dados para as tabelas, e mesmo dashboards de visualização.

Os alunos da disciplina deste ano foram apresentados ao GRIST e tiveram como opção de trabalho de conclusão da disciplina apresentar uma organização de seus dados sobre biodiversidade usando o GRIST. Um sucesso!

Chegando ao fim de mais uma “blogada”, vale algumas observações:

  • Não tenho propósito de “vender” o GRIST para ninguém. Contudo, confesso que estou usando “para tudo”! Desde meu livro de receitas (Sim! Adoro cozinhar e “migrei” meu livro de receitas para o GRIST) e até desenvolvi um pequeno sistema de registro de reuniões (memória), porque o ritmo de reuniões anda frenético e precisa de organização;
  • Não abandonei as planilhas! Ainda uso bastante as planilhas do Google e as soluções não são mutuamente excludentes. Sugiro uma abordagem “hibrida”, pois para cada situação há uma ferramenta apropriada;
  • O GRIST tem uma conta gratuita muito generosa, e sua versão paga tem um preço bem razoável. Eu até consegui 50% de desconto por ser professor!
  • É difícil mudar hábitos arraigados e sair da zona de conforto. Mas dedicando um pouco de tempo, a forma de trabalhar vai mudar para melhor, e para sempre. Considere o tempo gasto aprendendo a usar uma nova fermenta como “afiar o machado”, na inspiradora citação de Abraham Lincoln: “Give me six hours to chop down a tree and I will spend the first four sharpening the axe.”;
  • Experimente as outras ferramentas citadas e escolha a que mais se identifica ou se aplica às suas tarefas do dia-a-dia;
  • Se for experimentar o GRIST, sugiro fortemente assistir uns vídeos bem didáticos do canal deles no YouTube. É onde aprendi bastante coisa no início;
  • Liberte-se das limitadas planilhas! O mundo mudou e evoluiu. Sintonize-se!

Até a próxima!

Um Assistente pra chamar de seu

Downton Abbey Jim Carter as Charles Carson Looking Dapper in Tux 8 ...Neste mundo digital sobrecarregado de informações, encontrar exatamente o que se quer é uma tarefa árdua e, via de regra, frustrante. As empresas descobriram isso muito rápido, quando clientes tentam entrar em contato com o “suporte” para tirar uma dúvida ou, quase sempre, reclamar.

Com os progressos da “Inteligência Artificial”, começaram a surgir agentes ou assistentes virtuais cujo objetivo principal é auxiliar as pessoas a navegar neste avassalador espaço virtual e encontrar o que se quer. E, em algum momento, os assistentes baseados em comandos de voz, como o Alexa e o Google Assistant se fundiram com as ferramentas de “chat”, como o WhatsApp e Telegram e os assistentes virtuais baseados em inteligência artificial para atender clientes de grandes empresas começaram a surgir “como cogumelos depois da chuva”! Os mais conhecidos por aqui são a “Joice“, da OI (detalhes); e a “Lu” do Magazine Luiza. Na prática, com essas ferramentas, os clientes falam com “robôs treinados” que são capazes de entender a pergunta – da mais vaga e imbecil até a mais precisa e inteligente – e responder de forma apropriada. E, como característica fundamental da Inteligência Artificial (Machine Learning), ficam a cada dia mais inteligentes.

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O domador

Eu adoro essa ilustração do artista alemão Michael Sowa. Há alguns anos eu vi essa imagem pela primeira vez e me identifiquei com ela em vários aspectos. Desde então ela mora nos meus arquivos e mais recentemente ela tem me tocado novamente, ilustrando algumas ideias que gostaria de compartilhar agora com vocês.

Ando lendo bastante e profundamente interessado em como a Inteligência Artificial poderia ser utilizada para acelerar a geração de informação qualificada em biodiversidade. De forma mais específica, ando interessado em técnicas de “Machine Learning” para interpretação de imagens. Continue lendo “O domador”

Sonhando com um lago

Há algum tempo um lago tem frequentado meus sonhos. Explico.

Há muito e muito tempo atrás, em 2010 (percepção de tempo ajustada para falar de tecnologia), um sujeito chamado James Dixon publicou em seu blog algumas considerações:

  • 80-90% das empresas estão lidando com dados estruturados ou semi-estruturados (não desestruturados).
  • A origem dos dados é tipicamente um único aplicativo ou sistema.
  • Os dados são geralmente subtransacionais ou não transacionais.
  • Existem algumas perguntas conhecidas para perguntar sobre os dados.
  • Existem muitas perguntas desconhecidas que surgirão no futuro.
  • Existem várias comunidades de usuários que têm perguntas sobre os dados.
  • Os dados são de uma escala ou volume diário, de modo que não se ajustam técnica e / ou economicamente a um RDBMS.

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A entrega da informação sobre biodiversidade

Depois do último post comentando sobre o fluxo de dados até a tomada de decisão, gostaria agora de focar e explorar a última etapa deste fluxo: a entrega da informação sobre biodiversidade. E, para fins didáticos, vou usar como analogia um restaurante.

Vamos considerar que existem pessoas “famintas” por informação de qualidade sobre biodiversidade, e chamaremos estas pessoas de “tomadores de decisão“.  Vamos considerar também que elas vão ao restaurante para consumir os pratos oferecidos no cardápio (ou não!), que reconhecemos aqui como “informação“.

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De dados à decisão – o fluxo de dados em biodiversidade

O dado sobre biodiversidade cumpre um longo trajeto, com várias etapas intermediárias,  até chegar ao seu consumidor final e participar do processo de tomada de decisão. Assim como um produto de varejo qualquer, como uma blusa por exemplo, que é composta de tecido, linha e botões agregados de forma precisa e lógica, o dado sobre a biodiversidade é como o botão, ou a linha, ou mesmo o tecido. Na mão de “alfaiates” habilidosos estes elementos tomam forma e propósito.

Uma vez formada a imagem ilustrativa com o exemplo da blusa, fica fácil imaginar o produto final como a agregação de diferentes elementos – ou recursos de informação – cuja produção cumpre uma série de etapas ou trechos até chegar a sua forma final, que é atender um propósito específico do seu consumidor.  Assim, o que pretendo discutir aqui são os trechos percorridos pelo dado, da sua coleta até se transformar em um produto final, pronto para ser “consumido” em um processo de tomada de decisão. Continue lendo “De dados à decisão – o fluxo de dados em biodiversidade”

Dados abertos sobre biodiversidade

Em 11 de Maio de 2016 o Decreto No 8.777 institui a Política de Dados Abertos do Poder Executivo federal, onde consta como seu primeiro objetivo,  “promover a publicação de dados contidos em bases de dados de órgãos e entidades da administração pública federal direta, autárquica e fundacional sob a forma de dados abertos“.

Esta iniciativa, cujo ponto de partida remonta o ano de 2000, com o Decreto que instituiu o “Grupo de Trabalho Interministerial para examinar e propor políticas, diretrizes e normas relacionadas com as novas formas eletrônicas de interação, integra a Estratégia de Governança Digital – EGD do Governo Eletrônico Brasileiro que, por sua vez, é suportado por uma conjunto de instrumentos legais.

Em essência, as raízes deste movimento vem da busca pela eficiência na gestão com base nas novas tecnologias, mas também, e fortemente, em questões relacionadas à transparência, que formam o que é chamado hoje de Governo Aberto – movimento global do qual o Brasil é signatário de sua declaração de princípios.

No caso específico dos dados sobre biodiversidade sob a guarda do governo federal, forma-se uma área de sobreposição com outra iniciativa global que é a “Ciência Aberta“, que tem como um de seus componentes os “dados abertos”. Continue lendo “Dados abertos sobre biodiversidade”

Sustentabilidade de Sistemas de Informação para Biodiversidade

O Blog do rOpenSci trouxe um artigo bem interessante do Daniel Katz cujo primeiro parágrafo traz uma pergunta que não quer calar:

“A research (software) project often starts with a bright idea and an initial commitment of volunteer time, or perhaps, a fixed term grant. But what happens after that initial activity? How can the project continue to sustain itself?”

Continue lendo “Sustentabilidade de Sistemas de Informação para Biodiversidade”

A lâmpada e o abajur

Quando vou falar de “padrões” com meus alunos ou em palestras, costumo dizer que “é muito bom poder ir comprar uma lâmpada sem precisar levar o abajur, pois o Parafuso de Edison é um padrão”.

É claro que o exemplo é apenas para efeito didático, visto que existem diferentes tamanhos de “Parafuso de Edison” (lilliput. miniatura, candelabro, pequeno, médio, gigante), e até outros padrões para se encaixar uma lâmpada em um soquete.

Entretanto, ele é eficiente para ilustrar o o tema deste post, que é sobre o padrão de dados Darwin Core [1] e sua implementação – o Darwin Core Archive (DwC-A). Continue lendo “A lâmpada e o abajur”

Avaliação rápida de risco de extinção

Em 21 de dezembro de 2006 a CONABIO publicou sua resolução no 03, trazendo as Metas Nacionais para Biodiversidade que deveriam ter sido atingidas até 2010. A meta 2.7 dizia: “Uma avaliação preliminar do status de conservação de todas as espécies conhecidas de plantas, e animais vertebrados e seletivamente dos animais invertebrados, no nível nacional“. Esta meta continua pendente. Continue lendo “Avaliação rápida de risco de extinção”